Sexta-feira, 30 de Março de 2007
Sair porquê?
A cidade e o partido, o partido e a direita, a direita e o País, e nós, o quê?
 
Esta foi a equação.
 
Formar uma decisão é um processo solitário. Mesmo uma decisão pessoalíssima que, como foi o caso, teve implicações políticas. Não houve qualquer tentação de recorrer ao expediente - detestável - daquele heroísmo com que alguns políticos encobrem a vacuidade dos seus actos. Tudo muito mais simples e mais doloroso.
 
Mas a equação nunca foi bilateral. Por força da minha candidatura à Câmara de Lisboa, nessa decisão não pude nem quis descartar os lisboetas em geral, e os meus eleitores em particular.
 
Gostar do que se faz, como sempre me tem acontecido, é uma graça de Deus. Ser vereadora foi uma oportunidade. Que eu pedi e me foi concedida por um número reduzido, mas suficiente, de eleitores. Fiz a campanha com os meios e as condições possíveis. Não fora o debate público veiculado pelos media, a opinião publicada e a tenacidade de meia dúzia de pessoas e eu não teria chegado lá. Mas porque cheguei assim, ganhei a liberdade de estar como estive, por Lisboa. Sem compromissos que à partida me vinculassem a posições de puro interesse partidário, ajustes de contas antigos, preconceitos, interesses instalados, expectativas de pequenos poderes, empregos para clientelas.
 
Mesmo considerando as vicissitudes por que passou, neste ano e meio, a Câmara de Lisboa, este foi um tempo cheio de sentido. Ainda que modesta a utilidade que pode ter um só vereador, este foi também um tempo útil. Na iniciativa ou no combate político, ajudando a formar consensos ou denunciando o que estava (e está) mal, realizando trabalho concreto ou fazendo ouvir a minha voz, trabalhando com a máquina a favor das pessoas ou contra a máquina a favor das pessoas, aprendendo todos os dias com os que sabem muito mais do que eu, estudando as boas práticas das cidades e as experiências bem sucedidas para replicar, andando pelos bairros, pelas ruas, entrando nas casas, cujas portas me abriram os mais pobres de Lisboa, percebendo os vícios e as virtudes, os tentáculos do sistema de domínio burocrático, o desconhecimento passivo dos cidadãos relativamente aos seus direitos, uma cultura de poder mutuamente desresponsabilizante.
 
Foi esta a viagem a que me propus, e cuja rota procurei seguir, sem nenhum sacrifício, cheia de curiosidade, mais confiante à medida que somava um melhor conhecimento, mais experiência, maior fidelidade à dimensão do quotidiano de cada munícipe, essa dimensão tantas vezes desprezada no exercício da política mas que, na gestão da cidade, permanece como a mais relevante.
 
Tive a meu favor um presidente e uma direcção partidária totalmente consonantes com esta missão, facto decisivo para poder trabalhar com ambição.
 
No momento em que me desfiliei do partido por ser inútil, e mesmo imprópria, a minha permanência, confrontei-me com este facto terrível: tinha que renunciar ao meu mandato de vereadora. Pela primeira vez não ia cumprir um mandato popular, ia fazer o contrário do que tinha dito.
 
Confesso que me senti tentada a construir toda uma teoria sobre o direito e o dever de me manter vereadora com estatuto de independente. Mas os meus preciosos "grilos falantes" que actuam prontamente quando a minha consciência claudica impediram-me. Afinal não podemos fazer exactamente aquilo que criticamos aos outros.
 
Mas sou obrigada a desabafar: o de me ver obrigada em nome de uma crise em que o acessório destruiu o essencial e a forma feriu mortalmente a substância, renunciar unilateralmente a um compromisso multilateral. Por causa de uma inutilidade, perdi a possibilidade de prosseguir um trabalho útil.
 
A vida é um abrir e fechar de ciclos. Fechei um, porque já nada tinha a fazer, e fechei outro, sabendo o que fica por fazer.
 
Mas se alguma vez Lisboa precisar de tocar a rebate, quero que saibam que como lisboeta estarei na primeira linha. E também que no meu lugar fica alguém em cujas mãos deposito com orgulho, por ser ele quem é, este mandato, o meu compagnon de route Miguel Anacoreta Correia.
 
Maria José Nogueira Pinto
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publicado por Marlene Marques às 17:02
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