Sexta-feira, 16 de Março de 2007
Pensar (bem) a imigração
(in Diário de Notícias)
Quando vi pela primeira vez, no Nimas, o filme de Sérgio Tréfaut, confesso que não ia preparada para aquele murro no estômago que foi essa coisa extraordinária de "os" ver e ouvir falar entre "eles", "deles", de nós e sobre nós.

"Eles" são os imigrantes que aportam e peregrinam por Lisboa. Muitos e de diversas origens, com motivações e sonhos próprios, somatório de tantas histórias particulares que não cabem em formulários, não figuram nas estatísticas, mas desfiam-se nas imagens sóbrias, limpas, impressivas e, contudo, estranhamente serenas de Tréfaut.

Talvez por eu ter tido estatuto de refugiada e depois de imigrante, ter estado sentada em frente de homens fardados que me colocavam perguntas irrespondíveis (que sabem eles do nosso desconcerto...), a mãos com papéis verdes, formulários difíceis de preencher, aos quais sempre me faltava pôr um sim ou um não num quadrado quando tudo para mim era nem sim nem não, por ter sentido quando andava nas ruas que, a qualquer momento, alguém "devidamente autorizado" me podia perguntar que fazia eu ali, talvez por tudo isto "eles" ficaram parte de mim, muito para além do que foi o meu destino.

Portugal não teve e ainda não tem uma política de imigração. País secular de partida e chegada, encaixou mal os fluxos migratórios que parece não ser capaz de gerir, na sua previsão, possibilidade e correcção.

A Fundação Calouste Gulbenkian, com o arcaboiço que se lhe reconhece, agarrou este tema. Por vezes é necessário que um tema seja sacudido de fora para dentro dos centros de decisão para que o óbvio possa ser dito com tranquilidade. A conferência internacional subordinada ao tema Imigração: Oportunidade ou Ameaça - em si já um desafio - coroou um longo trabalho em diversas vertentes que reuniu o conjunto dos stakeholders, para que se pudesse abordar estas questões de forma aprofundada e liberta de clichés e atitudes simplistas e simplificadores, como afirmou o presidente Rui Vilar.

Subjacentes a toda a conferência as conclusões do relatório elaborado sob o comissariado de António Vitorino que nos brindou com algumas notas de evidente bom-senso, neste tema tão velho como o mundo, mas que ganha hoje, no contexto de uma realidade aberta e caracterizada pele extrema mobilidade das ideias, das pessoas, afinal das oportunidades e das ameaças, uma particular acuidade à escala mundial.

Desde a corajosa afirmação de que, nesta matéria, é preciso ir contra a opinião da maioria, até à evidência de que é preciso pensar SEF e ACIME em conjunto (acabando com a dicotomia dos maus e dos bons) até à recomendação de mecanismos flexíveis que favoreçam uma imigração de entrada e saída, tudo abriu o apetite para uma leitura funda do relatório e recomendações dirigidas tanto ao Público como ao Privado, incluindo as associações patronais e as centrais sindicais.

Três pontos relativos à integração me pareceram decisivos para a clarificação dos conceitos que em Portugal costumamos usar a esmo, sem qualquer rigor, só para encher a boca.

Normalmente assimilada simplisticamente apenas ao "social", e este por sua vez engolido pelo conceito de carência económica e social, a integração é um processo continuado, sustentado, multifacetado e plurigeracional no qual relevam a segurança de uma situação legalizada, ambiente propício a não secar as raízes culturais próprias e a integração espacial associada à noção de "território".

A este propósito as palavras do orador Joaquim Chissano quando ilustrou uma particular faceta da imigração dos jovens moçambicanos, "aventurar", isto é "viajar ilegalmente para destino desconhecido... à procura de um acaso que lhes fizesse descobrir um mundo melhor...", sentindo este "aventurar" como um ritual cultural de passagem para a idade adulta.

Mas para mim, como vereadora, tocou-me particularmente a fala de Laurent Cathala, presidente da câmara de Créteil, uma das cidades mais multiétnicas de França, descrevendo como a encontrou quando foi eleito pela primeira vez. Um território dilacerado: de um lado, o imenso estaleiro do "novo Créteil" com torres que cresciam como cogumelos; do outro lado, uma grande urbanização dos anos 60 que acolhia repatriados do Norte de África e migrantes, e por fim o centro antigo cujos habitantes se sentiam ultrapassados, desapossados da sua cidade.

Foi pena que toda a Câmara de Lisboa não estivesse ali para ouvir como o milagre de Créteil se tornou possível!
Maria José Nogueira Pinto
publicado por Marlene Marques às 11:38
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