Terça-feira, 19 de Julho de 2005
Depoimento de António Pedro Vasconcelos

"(...)O que me impressiona na Maria José é a sua capacidade para entender o fundo das questões, para incentivar os seus colaboradores a fazer obra - o que contrasta com a pesada maioria das pessoas com quem, ao longo de 30 anos de democracia, tenho esbarrado no aparelho de Estado -, o seu gosto em arrumar a casa, em lançar alicerces, em mobilizar as pessoas, em fazer o que é necessário e o que é justo.

Não fossem as suas convicções ideológicas – Deus, Pátria e Família – e eu, que sou ateu e de esquerda, revia-me sem esforço em tudo o que faz e no modo como o faz: no entendimento do que é serviço público, no espírito de missão, na capacidade para ouvir argumentos e delegar poderes, no desprezo pelo imobilismo. Em conversas que trocámos por email no único período em que divergimos – e de que irei falar – cheguei a dizer-lhe que a única coisa que parecia separar-nos era que eu não ia à missa ao domingo.(...)"

"O primeiro contacto profissional que tive com a Maria José foi em 1984 (se a memória me não trai), no período fugaz em que foi Presidente do IPC (Instituto Português de Cinema). Havia uns meses que o meu filme “O Lugar do Morto” estava parado porque o produtor e meu ex-sócio, Paulo Branco, havia desviado cerca de metade das verbas que o IPC lhe havia confiado, para produzir outro filme: “Dans la ville blanche”, de Alain Tanner. Perante os meus avisos e o meu protesto, a anterior direcção do IPC (já nem me lembro dos nomes das criaturas!) havia feito ouvidos de mercador e lavado as mãos do assunto como Pilatos.

Quando a Maria José chegou ao IPC, apresentei-lhe o problema, apelando à sua intervenção no sentido de obrigar o produtor, que continuava tranquilamente a produzir o filme de Tanner, a repor as verbas desviadas ou a devolver o negativo entretanto filmado. O que a Maria José fez foi o que faria qualquer pessoa com o sentido da justiça e da boa gestão da coisa pública, coisa que infelizmente nunca abundou entre os “servidores do Estado”, pelo menos na área do cinema: ordenou uma sindicância, levou o produtor a admitir a impossibilidade de repor em tempo útil as verbas desviadas, e, de posse do negativo, propôs que o IPC avançasse com as verbas em dívida para que o filme pudesse ser terminado, assumindo o produtor a responsabilidade de repor posteriormente as verbas desviadas.

Sem essa intervenção, a minha carreira no cinema teria provavelmente acabado ali; e o filme, que acabou por ser um dos mais populares do cinema português, teria ficado reduzido a uma série de bobines impressas, informe e incompleto, catalogado como uma mera curiosidade para historiadores.

Mais: estou absolutamente convicto que, se a Maria José tivesse ficado mais uns anos à frente do IPC, o cinema português não teria chegado ao que chegou: divórcio com o público, deserto de investimento privado, hostilidade dos agentes da comercialização – distribuidores, exibidores, directores de canais de TV -, total dependência dos subsídios, iniquidade dos concursos, ausência de fiscalização, impunidade de algumas situações de incumprimento.

Anos mais tarde, quando aceitei ser o responsável pelo SNA (Secretariado Nacional para o Audiovisual), acabei por vir a reencontrar a Maria José como Sub-Secretária de Estado da Cultura. Cavaco Silva delegara a tutela do SNA em Santana Lopes, à época o Secretário de Estado da Cultura, que, por sua vez, decidiu entregar à Maria José o dossier do Cinema e do Audiovisual. Durante o breve período em que com ela trabalhei, os dossiers avançaram, elaborou-se uma Lei de Cinema (que viria a ser trucidada em Conselho de Ministros, já depois da sua saída, e que levou à minha demissão do cargo), e preparou-se um pacote de medidas estruturantes da actividade, que ficou na gaveta depois da sua saída - e da minha.

Tenho-me por um homem de esquerda, que aceitou um cargo num governo de direita porque os objectivos que eu traçara para o sector mereceram o acordo expresso do PM e porque me pareceu que era possível fazer alguma coisa para mudar os destinos do cinema português, impor rigor e transparência na gestão dos dinheiros públicos, lançar uma política integrada para o sector, estabelecer códigos de regulação e medidas de fomento da actividade, tirar benefícios da nossa participação na União Europeia, nomeadamente através do acesso a fundos estruturais para o sector e também de um papel mais activo na obtenção de uma discriminação positiva para os chamados “pequenos países” europeus. De todos estes objectivos, só a política europeia teve êxito, porque tive mãos livres para a executar. No resto, só enquanto a Maria José teve a tutela directa dos dossiers tive uma cumplicidade activa do governo - o que, diga-se em abono da verdade, só foi possível pela confiança que Santana Lopes, nesse breve período, dedicou à equipa que eu formei com a Maria José e os seus colaboradores.

O que me impressiona na Maria José é a sua capacidade para entender o fundo das questões, para incentivar os seus colaboradores a fazer obra - o que contrasta com a pesada maioria das pessoas com quem, ao longo de 30 anos de democracia, tenho esbarrado no aparelho de Estado -, o seu gosto em arrumar a casa, em lançar alicerces, em mobilizar as pessoas, em fazer o que é necessário e o que é justo.

Não fossem as suas convicções ideológicas – Deus, Pátria e Família – e eu, que sou ateu e de esquerda, revia-me sem esforço em tudo o que faz e no modo como o faz: no entendimento do que é serviço público, no espírito de missão, na capacidade para ouvir argumentos e delegar poderes, no desprezo pelo imobilismo. Em conversas que trocámos por email no único período em que divergimos – e de que irei falar – cheguei a dizer-lhe que a única coisa que parecia separar-nos era que eu não ia à missa ao domingo.

Uma única vez, portanto, lhe manifestei a minha decepção pela posição que adoptou – e que viria a revelar-se, quiçá pela sua presença – menos negativa do que eu poderia temer. Foi quando decidiu dar cobertura e participar activamente numa Comissão nomeada pelo então Ministro Moraes Sarmento para definir os contornos e as regras do Serviço Público de Televisão (!), cujo mandato implicava a extinção de um dos canais da RTP. Tive, na altura, um papel muito activo na oposição ás anunciadas medidas do governo e à constituição e objectivos dessa Comissão, onde não tinham assento vozes incómodas e onde vi, com desgosto, no meio de gente que nada qualificava para aquela missão, sentarem-se pessoas que estimo e respeito como o Miguel Sousa Tavares e a própria Maria José. Tive então oportunidade de lhe manifestar a minha apreensão pelas medidas dementes que o Ministro – qual elefante numa loja de porcelana – anunciava para a RTP. Foi nessa altura que trocámos uma extensa correspondência por email – a Zezinha estava em Madrid -, onde lhe manifestei a minha decepção por vê-la a colaborar num projecto dúbio – posição que resumi num livro que, entretanto, publiquei e a que chamei “Serviço Público/Interesses privados”. O resultado desse grupo de Trabalho acabou por ser inóquo e, de certo modo, atenuar os ímpetos do Ministro, por ventura graças ao bom senso de pessoas como a Maria José – não me custa reconhecê-lo – que terão tido um papel moderador relativamente aos activistas ignorantes e oportunistas servis que abundavam por lá."

António Pedro Vasconcelos


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publicado por Maria José Nogueira Pinto às 16:27
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